Texto, Reforma do Estadão, 2004

Em resposta ao texto de Alberto Dines.
Observatório da Imprensa, 2004.11.02
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=301SAI002
REFORMA DO ESTADÃO
À imagem e semelhança da empresa

Por Carlos André Gomes da Silva em 2/11/2004

“Os consultores e projetistas internacionais que ganham a vida redesenhando e refazendo a mídia impressa pelo mundo afora não estão minimamente preocupados com o futuro dos jornais, do jornalismo, da imprensa, da cultura e da sociedade. Seu negócio é cosmética, cosmética em papel. Não prometem permanência ou durabilidade – se assim fosse morreriam de fome.”

Este fragmento de texto de Alberto Dines [“O toque Armani no jornalismo”, remissão abaixo] contém uma visão distorcida do trabalho do designer. Nenhum designer do mundo, por mais autoral e renomado que seja, é capaz de criar um jornal à sua imagem e semelhança. Mudar um jornal é uma decisão editorial, tomada pelos dirigentes da empresa que decidem dar ao produto que editam a nova cara por razões de mercado. A face do produto é uma conseqüência dessa nova visão, e não sua causa.

Depositar sobre o designer a responsabilidade por criar um produto levíssimo quando houve decisão de torná-lo editorialmente frívolo é condená-lo por sua eficiência. Obviamente, e aí concordamos, o ideal para o Estado de S. Paulo seria não se distanciar tão brutalmente da imagem anterior, a tal clássica, mas não sem resolver problemas evidentes que o projeto trazia. Pode-se gostar de ler o Estadão, mas tecnicamente ele era ruim. O pior de todos. Pesado, uma massa contínua de textos que sugeria um tempo de leitura que seria muito maior do que o efetivamente necessário – muito bom para simular uma ilusão de densidade inexistente, mas pouco eficaz para promover sua assimilação.

Nas gavetas

Verdade: o jornal pode parecer adequado para os portadores de uma erudição necessária, mas continuará agradando visualmente a uma parcela menor da população – outros, a maioria, aceitarão a contragosto, como ficou claro no desejo de mudança dos leitores. O amontoado de letras também não espantava aqueles que estão familiarizados com a tradição cartorial brasileira, mesmo que por motivos profissionais – aqui incluo os operadores do Direito que, para cima e para baixo, carregam volumes diagramados no mesmo estilo do jornalão paulista.

Não me cabe discutir as questões relativas à atividade jornalística e as preocupações do autor, que também são as minhas – pois, ao contrário do que foi dito, há muitos profissionais da área que estão preocupados com o futuro dos jornais, do jornalismo, da imprensa, da cultura e da sociedade. O designer, como o jornalista, move-se dentro da restrita área delimitada pelas diretrizes empresariais de quem o contrata – ou então, quando o resultado dessa atividade for apresentado, será descartado por não refletir a nova imagem previamente decidida.

Há centenas de casos de tentativas de impor um estilo pessoal que ficaram nas gavetas. Mais: o trabalho do designer não é e não pode ser confundido com ação cosmética. Beleza é uma função num produto de consumo. Mas não a única a preocupar o designer. São tantos os aspectos envolvidos que eu tomaria um enorme tempo do leitor descendo a detalhes desnecessários.

Tradução da miséria

Necessário dizer: um jornal, com toda sua importância específica, não é um relicário. Ele é um organismo vivo que se adapta, uns mais outros menos, ao meio em que se insere. E não deve ter como premissa a necessidade de parecer feio e mal resolvido. Quem deve dar ao jornal o conteúdo e a profundidade analítica que todos nós desejamos são os jornalistas – muito dos quais, como tem sido comentado aqui mesmo, muito mais empenhados em garantir suas posições do que em cumprir o papel que deles se espera.

E essa densidade, diga-se, não pode ser confundida com o terrível amontoado da mancha do Estado de S. Paulo. Ela já de muito tempo deveria ter sido removida por ser de um anacronismo evidente, por prejudicar a leitura de seu conteúdo, e por determinar de forma impiedosa um clima radicalmente conservador que nunca foi onipresente em todas as seções. No Estado de S. Paulo, até uma piada ganhava ares de sermão.

Finalmente: o design do Jornal do Brasil, por exemplo, é um eterno caso de sucesso. Nos anos 1960, a genial reforma de Amilcar de Castro refletia com precisão o que o JB era e o que durante muito tempo continuaria a ser. Perfeito. E, hoje, parece-me que seu design é ainda melhor. Em sua imperfeição, em sua falta de alma, com suas referências mal resolvidas ao passado glorioso do periódico (hoje) decadente, o projeto gráfico adotado é a mais perfeita tradução da miséria do JB.

Leia também
O toque Armani no jornalismo – Alberto Dines

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